Tomás De Castilho Spirandelli
O Brasil foi escolhido pela Confederação Brasileira de Ginástica para sediar, em 2026, os Campeonatos Sul-Americanos de Ginástica Acrobática, Ginástica de Trampolim e Parkour, após decisão em assembleia da entidade continental, visando reconhecer o crescimento da modalidade no território nacional e consolidar o esporte no cenário sul-americano, conforme divulgado pela própria Confederação Brasileira de Ginástica.
Com muros, praças, parques e escolas se tornando academias improvisadas, o parkour ganha cada vez mais adeptos no Brasil. A prática, que surgiu como forma de se deslocar de maneira inusitada em ambientes urbanos, tem conquistado crianças, adolescentes e jovens adultos, tornando-se também um instrumento de inclusão.
Para quem não acompanha o esporte, pode ser difícil entender qual é o seu diferencial. Quando pensamos em futebol, a ação com os pés e a criatividade vêm ao imaginário; no vôlei, é a impulsão, a altura e o atletismo que chamam a atenção. Mas, no parkour, o destaque é claro: lidar com obstáculos, sejam eles físicos ou não.



Inclusão e benefícios para crianças
“A criança que pratica parkour tem mais confiança no corpo, mais controle motor e mais autoestima”, afirma Marcelo Canobbio Cruz, professor de parkour da FLY, uma academia da modalidade em Goiânia. Com apenas 21 anos, Marcelo ministra aulas para grupos de crianças e adolescentes em um espaço adaptado, com percursos e obstáculos característicos do esporte. Esses obstáculos vão desde pneus e bancos de concreto até barras de ferro. “Temos alunos com transtorno do espectro autista que tiveram avanços nítidos na socialização e no foco. O parkour, por ser livre para a criatividade, respeita o ritmo de cada um.”
Entre as inúmeras histórias que Marcelo observou de perto, ele lembra com carinho de um aluno: Caio, de 9 anos, que encontrou no esporte uma forma de se expressar. “Quando ele chegou, não conseguia participar das atividades, principalmente devido à fobia social. Hoje, corre, salta, interage com os colegas. É inspirador ver esse progresso. Eu sinto que estou fazendo a coisa certa”, conta o professor.
Caio é justamente um dos que mais se destaca nas aulas. Ele conta que sempre teve dificuldades em esportes coletivos, nos quais havia regras rígidas e cobranças. “No parkour eu me sinto livre. Posso repetir o movimento até conseguir, ninguém me apressa. Gosto porque fico bom rápido, mais rápido do que no futebol ou na natação”, diz o aluno, orgulhoso.
Crescimento e desafios da modalidade
A crescente popularização do parkour também tem despertado o interesse de educadores físicos e escolas. Algumas instituições de ensino começaram a incluir oficinas da modalidade em suas grades extracurriculares, enxergando no esporte não apenas um meio de atividade física, mas de desenvolvimento pessoal e coletivo.

Um dos desafios que escolas de parkour enfrentam é romper o preconceito. Os vídeos virais na internet mostram um lado mais arriscado da prática, e esse estereótipo contribui para dificultar a consolidação do esporte. “Dizem que é só pular muros, mas é muito mais do que isso. Quando ensinado com responsabilidade, o parkour é seguro e vai muito além do que os vídeos no TikTok mostram”, explica Marcelo.
O anúncio do campeonato para 2026 reforça esse movimento de crescimento. A competição deve reunir atletas de diversos países sul-americanos e ampliar a visibilidade da modalidade, que ainda busca maior reconhecimento institucional e incentivo.
Para Marcelo, seus alunos e diversos outros praticantes pelo Brasil, 2026 tem tudo para ser um ano histórico para o esporte. A expectativa é que o evento fortaleça projetos sociais, amplie o número de praticantes e consolide o parkour como uma alternativa esportiva acessível, capaz de transformar espaços urbanos em locais de aprendizagem e inclusão.