De Jéssica Gomes e Francisca Martins
Tecnologia, pesquisa da Embrapa e sementes de qualidade explicam crescimento de mais de 1.000% da agricultura desde a década de 1970

O Brasil cultiva grãos em cerca de 84 milhões de hectares. Soja e milho respondem pela maior parte, com quase 70 milhões de hectares plantados. Feijão, arroz e trigo completam o quadro, ocupando os 14 milhões de hectares restantes. Apesar da extensão, apenas 8% a 9% do território nacional é usado para agricultura, segundo dados da Embrapa confirmados pela NASA.
O salto produtivo é o que mais impressiona. Na década de 1970, o país produzia entre 35 e 40 milhões de toneladas de grãos. Hoje, a marca ultrapassa 358 milhões de toneladas. De 1970 até 2026, a agricultura brasileira cresceu 1.023%.
Semente de qualidade e tecnologia no campo
Para o analista de grãos da Embrapa, Rodrigo Sérgio, o ponto de partida é a semente. “A agricultura é a arte do capricho. Não tem como caprichar em uma lavoura para ela produzir com alta produtividade e qualidade se você não partir de uma semente de qualidade”, afirma.
Ele alerta para o uso de “bolsa branca” ou sementes piratas, produzidas por meios informais e fora dos padrões do Ministério da Agricultura. “Se a semente não tem os atributos mínimos exigidos, o agricultor vai ter uma planta sem vigor, que vai produzir menos e exigir mais investimento do que uma planta vigorosa”.
A aposta em tecnologia também marca o perfil do produtor atual. “Hoje o agricultor goiano é altamente tecnológico e está apoiado pelo melhor que tem das consultorias e o melhor da tecnologia”, completa Rodrigo.

Fonte: Galeria
A criação da Embrapa e a conquista do Cerrado
Antes de 1973, a agricultura tecnológica no Brasil se concentrava nas regiões de clima subtropical do Sul – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O Cerrado, que representa 24% do território nacional e é o maior bioma do país, era considerado estéril para a produção de grãos.
Para mudar esse cenário, o então ministro da Agricultura, José Irineu Cabral, e o pesquisador Dr. Eliseu Alves fundaram a Embrapa em 26 de abril de 1973, com a missão de desenvolver a agricultura tropical brasileira.
A empresa investiu na formação de pesquisadores, enviando recém-formados em Agronomia e Biologia para universidades de prestígio no exterior. O desafio era adaptar técnicas criadas para clima subtropical ao ambiente tropical do Cerrado. O resultado veio: adaptação de sementes e raças de gado ao clima e solo locais, aplicação de ciência e tecnologia, e a expansão da fronteira agrícola.
Bioinsumos, clima e ferramentas para o produtor
Outro destaque da pesquisa brasileira são os bioinsumos que são insumos biológicos voltados para alta produtividade com menor uso de produtos químicos. O Brasil é referência no tema. A cientista Mariângela Hungria, foi premiada internacionalmente pelas contribuições na área.

As mudanças climáticas e como elas influenciam a agricultura
chegada do El Niño preocupa produtores. “O efeito do El Niño e La Niña é cíclico. É o aquecimento das águas do mar no El Niño e o esfriamento na La Niña. Sabemos que as questões meteorológicas têm se intensificado no nosso país. No El Niño, temos menos chuva no Cerrado brasileiro e encaramos o desafio de produzir nessa situação. Mas temos condição de continuar produzindo com alta quantidade”, explica Rodrigo.
A recomendação para enfrentar o fenômeno é planejamento: escolher a cultura adequada para o momento, conhecer a cultivar e acompanhar a demanda do mercado.
O produtor também conta com o ZARC, Zoneamento Agrícola de Risco Climático. A plataforma do Ministério da Agricultura, desenvolvida dentro da Embrapa, cruza dados informados pelo agricultor – região e grão que deseja plantar – e indica a janela de plantio com menor risco climático.
Três safras e a força do arroz
O Brasil é um dos poucos países do mundo a conseguir até três safras de grãos por ano em algumas regiões. Na produção de arroz, há duas modalidades: o arroz irrigado, produzido por inundação em terras baixas, e o arroz de terras altas, cultivado fora da lâmina d’água.
Criada para adaptar ciência ao clima tropical, a Embrapa transformou o Cerrado no motor da produção nacional. De área tida como improdutiva nos anos 1970, o bioma hoje sustenta parte expressiva dos 358 milhões de toneladas de grãos que colocam o Brasil na posição de celeiro do mundo.