O começo da revolução

Falar do Arsenal Invencível é falar de uma das equipes mais lendárias da história do futebol inglês. E tudo começa em 1996, quando o clube aposta em um treinador praticamente desconhecido na Inglaterra: Arsène Wenger.
Depois de trabalhos marcantes no Monaco e no Nagoya Grampus, do Japão, Wenger chegou ao Arsenal cercado de desconfiança. A imprensa inglesa não acreditava que um técnico estrangeiro pudesse entender o futebol do país, mas ele rapidamente começou uma revolução dentro do clube. Mudou métodos de treinamento, alimentação, preparação física e até a mentalidade dos jogadores.
“O que é realmente terrível é a dieta na inglaterra. O dia inteiro você bebe chá com leite e café com bolo. se você fosse escolher o que não comer como esportista, é o que tem aqui”
– do livro ARSENE WENGER: THE INSIDE STORY OF ARSENAL UNDER WENGER
Os resultados apareceram rápido. Com nomes como Dennis Bergkamp, Patrick Vieira e Ian Wright, o Arsenal conquistou a Premier League e a FA Cup em 1997/98. Nos anos seguintes o time seguiu competitivo, mesmo esbarrando constantemente no Manchester United de Alex Ferguson, com o Arsenal sendo vice dele na Premier League por três anos consecutivos.
A chegada de Thierry Henry

Ao mesmo tempo, Wenger foi moldando uma equipe cada vez mais forte. Chegaram jogadores importantes como Robert Pires, Ljungberg, Lauren, Ashley Cole e Sol Campbell. Mas nenhuma contratação foi tão importante quanto Thierry Henry.
Revelado pelo Monaco pelo próprio Wenger, Henry reencontrou o treinador em 1999 após uma passagem frustrante pela Juventus. No Arsenal, deixou de ser apenas um ponta veloz para virar um dos atacantes mais letais do mundo. Com velocidade absurda, dribles e finalizações únicas, ele se tornou o símbolo do chamado “Wengerball”: um futebol ofensivo, rápido e envolvente.
Em 2001/02 o Arsenal voltou a conquistar a dobradinha da Premier League e FA Cup, mostrando que o time estava pronto para dominar o futebol inglês. E então veio a temporada que mudaria tudo.
Durante esse período o time estava a todo o vapor e Wenger deu uma declaração que deixou bastante gente surpresa:
“Não é impossível passar a temporada inteira sem perder e não entendo por que é chocante dizer isso.“
O elenco lendário
O Arsenal chegou para a temporada 2003/04 sem grandes reforços, tendo apenas o goleiro Jens Lehmann como principal novidade. Mesmo assim, o elenco já era extremamente forte.
O time titular tinha Lehmann, Lauren, Sol Campbell, Kolo Touré e Ashley Cole. Gilberto Silva e Patrick Vieira no meio. Ljungberg e Robert Pires pelos lados. Bergkamp na criação e Thierry Henry comandando o ataque.
Mais do que talento, aquela equipe tinha equilíbrio. Era ofensiva, técnica e veloz, mas também muito intensa defensivamente. Gilberto Silva, apelidado de “Muralha Invisível”, dava segurança para Vieira avançar ao ataque, enquanto Bergkamp era o cérebro da equipe e Henry era a principal arma ofensiva.
Um começo implacável

O Arsenal começou a temporada voando. O Wengerball estava no auge: trocas rápidas de passe, intensidade absurda e um ataque que parecia impossível de parar. Depois de quatro vitórias e um empate, chegou aquele que muitos consideravam o verdadeiro teste da equipe: o Manchester United, em Old Trafford.
Arsenal e United dominavam o futebol inglês há anos. Era muito mais do que um jogo comum: era praticamente uma final antecipada.
A partida ficou conhecida como “A Batalha de Old Trafford”. O clima era pesado, o jogo travado e cada dividida parecia uma guerra. O Arsenal não conseguia atacar e a situação piorou quando Patrick Vieira foi expulso no segundo tempo após um embate com Van Nistelrooy.
Mesmo com um jogador a menos, o elenco resistiu. Até que, aos 47 minutos do segundo tempo, tudo parecia acabar: Pênalti para o Manchester United.
Van Nistelrooy pega a bola enquanto o estádio inteiro prende a respiração. Um gol ali encerraria o sonho tão almejado.
Nas palavras de Arsène Wenger:
“A vida é sobre milímetros. A gente fala dos ‘Invencíveis’, mas por questão de milímetros eles não existiriam.”
Van Nistelrooy corre para a cobrança e acerta o travessão. O jogo termina em 0x0 e, naquele momento, parecia que o Arsenal tinha sobrevivido ao impossível.
A partir dali, o time passou a acreditar de verdade que poderia fazer história.
O pior momento da temporada

Em questão de dias, o Arsenal foi eliminado da FA Cup e da Champions League. Dessa forma a pressão só aumentava, pois agora só restava a Premier League, e junto dela, a invencibilidade.
Logo depois das eliminações, o Arsenal enfrentou o Liverpool em Highbury. O clima era de tensão total e o time ainda saiu perdendo logo no começo da partida. Foi então que Thierry Henry marcou três gols e garantiu a vitória, colocando o Arsenal nos trilhos.
Poucos jogos depois, veio talvez o momento mais simbólico de toda a campanha: O clássico contra o Tottenham em White Hart Lane, o Arsenal precisava apenas de um empate para garantir o título, justamente na casa do maior rival. Os Gunners abriram 2×0, viram o Tottenham se recuperar
, mas conseguiram segurar o empate por 2×2 e garantir o título perante a torcida rival.
Invictos

Na rodada final, contra o Leicester em Highbury, o Arsenal precisava apenas evitar a derrota para terminar a Premier League invicto. O Leicester saiu na frente, mas aquele time estava destinado a fazer história. Henry empatou de pênalti e, logo depois, Bergkamp encontrou Vieira com um passe perfeito. O capitão driblou o goleiro e marcou o gol da vitória.
O Arsenal terminava a Premier League 2003/04 sem perder uma única partida, algo que parecia impossível na era moderna do futebol inglês.
“Ser Invencível é algo mais profundo, é recusar perder a qualquer custo. É não desistir nunca.”
– Arsène Wenger