Comunidades quilombolas do Tocantins preservam tradições ancestrais enquanto enfrentam desafios sociais e territoriais
Por: Natália Aquino e Raiane Arcanjo

Foto: Darleide Rosa
A mais de 100 quilômetros do centro urbano de Arraias, no sudeste do Tocantins, comunidades quilombolas seguem preservando tradições seculares, modos de vida sustentáveis e uma forte ligação com a ancestralidade africana. No território da Associação Quilombola Kalunga do Mimoso (AKMT), formado por cerca de 370 famílias e aproximadamente 3 mil pessoas espalhadas por mais de 57 mil hectares, resistência significa manter viva a cultura diante dos desafios sociais, econômicos e territoriais.
Localizada entre os municípios de Arraias e Paranã, a comunidade é formada por descendentes de africanos escravizados que fugiram das minas de ouro no século XVIII. O território é dividido em diversos núcleos comunitários, entre eles o núcleo Albino e o núcleo Aparecida, onde tradições e costumes seguem sendo preservados de geração em geração.
A sobrevivência da comunidade está diretamente ligada ao extrativismo sustentável e à agricultura familiar. O cultivo da terra e o manejo tradicional do Cerrado garantem alimento, renda e a preservação ambiental da região. Mais do que um espaço geográfico, o território representa identidade, pertencimento e memória coletiva.
O agricultor Gercino Curcino Gonçalves da Cunha, de 48 anos, morador da comunidade quilombola Kalunga do Albino, vive no território desde o nascimento e mantém uma rotina baseada no trabalho rural. O sustento da família vem do cultivo de arroz, milho e mandioca, além da criação de animais, como galinhas e vacas.

Na foto o entrevistado Gercino Curcino
Segundo ele, a realidade da comunidade mudou ao longo dos anos, principalmente em relação ao acesso e à infraestrutura.
“Antigamente, para chegar na cidade, a gente precisava viajar a cavalo por estradas difíceis. Hoje já temos estradas melhores e transporte com mais facilidade.”
Mesmo com os avanços, desafios importantes ainda fazem parte da realidade quilombola. A distância dos centros urbanos dificulta o acesso à saúde, educação e outros serviços básicos. Em algumas regiões, a energia elétrica ainda não chegou, sendo necessário o uso de geradores.
Gercino também destaca conquistas recentes que fortalecem a autonomia da comunidade, como a chegada de uma máquina de beneficiamento de arroz.
“Foi uma conquista importante para nós, porque ajuda no processamento da produção e fortalece a luta diária da comunidade.”
Além da agricultura, a cultura quilombola ocupa papel central na vida dos moradores. As tradições religiosas, as folias e as festas populares mantêm viva a ancestralidade do povo Kalunga. Um dos eventos mais importantes é a Festa do Albino de São João Batista, celebração tradicional que reúne moradores durante vários dias.

Foto: : Darleide Rosa
Segundo Gercino, antigamente as festas aconteciam em condições mais simples, iluminadas apenas por lampiões, mas nunca perderam seu significado cultural. “Hoje as festas cresceram, têm músicos contratados e mais estrutura, mas continuam preservando nossa tradição e nossa identidade.”
A cultura quilombola também se manifesta por meio da Suça — ou Sússia — dança tradicional de origem africana marcada pelas saias rodadas, cantos, tambores, violas e pandeiros. A prática ocupa lugar central nas festas religiosas, rituais de colheita e celebrações comunitárias.
A jovem liderança quilombola Darleide Rosa , de 24 anos, afirma que manter viva essa herança cultural exige resistência diária.

Na foto a entrevistada Darleide Rosa
“Ser militante e atuante dentro de uma comunidade vai além de ser quilombola. Precisa de força, coragem e olhar para trás, ver o que a gente já foi fruto.”
Para ela, a cultura é o elo que mantém viva a ancestralidade do povo quilombola. “A cultura dentro da comunidade quilombola é bem rica, pois é onde a gente sente nossa ancestralidade viva, permanente, a força de nossas raízes” cita.
As tradições começam ainda na infância, ensinando respeito aos mais velhos, participação nas rezas, folias e celebrações religiosas. As manifestações culturais incluem rodas de canto, catira e a dança da Suça, fortalecendo os laços entre as famílias e preservando os saberes ancestrais.

Fonte: Darleide Rosa
Apesar da forte identidade cultural, a comunidade enfrenta dificuldades históricas. A regularização fundiária continua sendo um dos principais desafios, já que parte do território sofre ameaças de grileiros. Além disso, a falta de políticas públicas e de oportunidades faz com que muitos jovens deixem o território em busca de estudo e melhores condições de vida.
“Quando os jovens saem em busca de conhecimento e melhoria de vida, acaba ficando difícil o retorno para dentro do território”, relata Darleide.
Mesmo diante das dificuldades, parte da juventude tem buscado fortalecer a luta quilombola. Um exemplo é o projeto “Olhares Quilombolas”, criado por jovens lideranças do Tocantins para conscientizar sobre os impactos da mineração no território Kalunga do Mimoso e valorizar a identidade quilombola.
Olhares Quilombolas
O projeto reúne jovens quilombolas e acadêmicos, entre eles Allan Martins, Henrique Neto, Brena Cezario, Olavo Lisboa, Crislorraine Nogueira, Raiane Arcanjo e Darlede Cunha. A iniciativa busca unir comunicação, cultura e mobilização social para defender o território e ampliar a visibilidade das comunidades tradicionais.
Darleide acredita que o futuro da comunidade depende da valorização da juventude e da criação de políticas públicas efetivas.
“Eu ainda tenho o sonho de ver a juventude ativa e atuante dentro da comunidade, devolvendo frutos dos aprendizados lá fora e trazendo mais oportunidades, sem deixar morrer a vivência dos nossos antepassados.”
Mesmo diante dos desafios, os moradores seguem preservando tradições, fortalecendo vínculos comunitários e resistindo às ameaças externas. Para o povo Kalunga do Mimoso, permanecer no território significa manter viva a memória, a cultura e a ancestralidade de gerações.
“Resistência vai além de resistir. É ser força, aconchego, insistir na mudança, na preservação e em toda biodiversidade que vejo ao meu redor”, conclui Darleide.