23/09/2026

Vai pagar quando?

Da dívida bilionária ao orçamento familiar, a crise da Casas Bahia chega aos trabalhadores desligados, que relatam pendências em verbas rescisórias.

Por Francisca Martins, Denis Robson, Mateus Henrique e Vilmar Lins

Loja da Casas Bahia na Visconde de Pirajá, em Ipanema, fechada — Foto: Fabiano Rocha/O Globo

A crise que levou o Grupo Casas Bahia à recuperação judicial em 2026 não começou agora. Ela foi construída ao longo de anos, entre mudanças de gestão, dificuldades de integração entre lojas físicas e comércio eletrônico, alto endividamento, crescimento dos marketplaces e um modelo historicamente dependente de crédito e vendas parceladas. Em agosto, o grupo entrou com pedido de recuperação judicial, envolvendo cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. O cenário também foi pressionado pelos juros elevados, que encarecem tanto o financiamento para o consumidor quanto o custo das próprias dívidas das empresas.

Como parte da reestruturação, o Grupo Casas Bahia fechou 298 lojas e cerca de 1,9 mil trabalhadores foram atingidos pelos desligamentos. O grupo, que além da Casas Bahia também controla a marca Ponto Frio, vem reduzindo sua presença física enquanto tenta reorganizar as finanças e adaptar a operação a um varejo cada vez mais digital. Para o economista Pedro Menezes, a forte relação histórica da Casas Bahia com o financiamento ajuda a explicar a dimensão da crise. Segundo ele, a companhia está entre as varejistas brasileiras mais associadas à venda financiada, o que aumenta sua exposição em períodos de crédito caro.

“A Casas Bahia talvez sejam das instituições do varejo brasileiro a mais associada a financiamento.”

Além dos juros, a empresa também precisou lidar com mudanças no comportamento de consumo, avanço do comércio eletrônico e maior concorrência dos marketplaces. Para especialistas, esses fatores se somam a problemas próprios da companhia, como endividamento elevado e sucessivas tentativas de reestruturação.

Quando a crise sai do balanço

Se para a empresa a crise é medida em bilhões, para quem perdeu o emprego ela aparece em salários, aluguel, supermercado e contas que continuam chegando. Os nomes dos ex-colaboradores ouvidos pela reportagem foram alterados a pedido das fontes, que preferiram não se identificar enquanto acompanham questões trabalhistas e judiciais relacionadas aos desligamentos.

Depois de aproximadamente dez anos na empresa, “Carlos”, nome fictício, afirma ter sido dispensado sem justa causa em 14 de agosto. Segundo ele, o exame demissional e a documentação da saída foram concluídos, mas as verbas rescisórias continuavam pendentes.

“Esses valores são direitos decorrentes de anos de trabalho e são de extrema importância para mim e para minha família.”

Situação semelhante é relatada por “Marcos”, desligado após o encerramento da unidade onde trabalhava. Ele afirma que ainda aguarda valores da rescisão e que a falta desse dinheiro aumentou a insegurança financeira após a perda do emprego.

“Por trás de cada funcionário desligado existe uma família, existem contas para pagar.”

Vendedor das Casas Bahia troca o preço da TV. Foto: Lucas Tavares/Agência O Globo

Entre os atingidos também está “Ana”, que trabalhava na área de produtos digitais. Ela relata que os desligamentos alcançaram funcionários de lojas e do corporativo e que a indefinição sobre os pagamentos ampliou a preocupação entre os ex-colaboradores. Segundo Ana, a situação passou a ser ainda mais delicada quando trabalhadores começaram a acompanhar seus nomes e valores dentro do processo de recuperação judicial.

“Os grandes fornecedores devem ter um capital de giro para continuar honrando seus compromissos. Agora a Maria, o José, o Roberto, a Ana não têm.”

E quais são os direitos?

A recuperação judicial não elimina os direitos trabalhistas. O advogado trabalhista Jorge Soares explica que quem foi desligado continua tendo direito às verbas rescisórias, ao FGTS e às indenizações previstas em lei. Segundo Soares, quando os valores são anteriores ao pedido de recuperação judicial, o trabalhador passa a figurar como credor da empresa. Nesses casos, é importante verificar se o nome e o valor devido aparecem corretamente na relação de credores.

“Os créditos trabalhistas têm prioridade dentro da recuperação judicial, mas isso não significa que o pagamento seja imediato. O prazo depende do andamento do processo e das condições previstas no plano de recuperação”

Para quem foi atingido pelos desligamentos, a crise deixa de ser apenas uma discussão sobre balanços, dívidas e juros. Ela passa a ser uma questão de renda, sobrevivência e expectativa. Equanto a empresa tenta reorganizar bilhões em dívidas, os ex-funcionários aguardam uma resposta muito mais simples: Vai pagar quando?

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