A proprietária do salão teve a condensadora do ar-condicionado furtada três vezes em 2026, duas delas com apenas seis dias de intervalo. Após ser assaltado na porta do próprio estabelecimento, outro comerciante passou a abrir mais tarde e fechar mais cedo. Os dois sentem falta de policiamento nas ruas da região.
Por: Francisca Martins, Denis Robson, Mateus Henrique Pinto e Vilmar Lins

Foto: Francisca Martins
A insegurança passou a determinar a rotina dos estabelecimentos do Setor Leste Universitário, em Goiânia. Adriana Silva, proprietária de um salão de beleza, atende sem ar-condicionado depois de ter a condensadora furtada três vezes neste ano. Divino Borges, assaltado na porta de sua lanchonete, decidiu reduzir o horário de funcionamento.
Os casos têm características diferentes, mas o resultado aparece na rotina: mais gastos, menos conforto e redução no atendimento. No salão, os furtos acontecem com o local fechado e atingem o patrimônio. Na lanchonete, o assalto ocorreu com o comércio aberto.
Por que a condensadora virou alvo?
O furto de condensadoras, a unidade externa do ar-condicionado, tornou-se uma modalidade específica de crime contra o comércio. O interesse dos criminosos raramente está em revender o aparelho inteiro, mas em desmontá-lo para retirar o cobre e o alumínio presentes nas serpentinas, nas tubulações e no motor do compressor. O material é repassado depois como sucata.
A posição do equipamento facilita a ação. Por exigência de instalação, a condensadora fica sempre do lado de fora: em fachadas, telhados, recuos e becos. São áreas pouco visíveis, que costumam ficar sem qualquer vigilância quando o comércio fecha.
Para o comerciante, o prejuízo é duplo. Além do custo de repor um equipamento que vale muito mais do que o metal retirado dele, há o impacto sobre o funcionamento da loja durante o expediente. É exatamente o que acontece no salão de Adriana.
Três furtos no mesmo ano
Ela guarda as datas de cada ocorrência. O primeiro furto foi em fevereiro, durante o feriado de carnaval. Como o salão estava fechado, ela só percebeu que a condensadora havia sido levada quando retomou as atividades.
“Só este ano foram três vezes que eles tiraram minhas condensadoras”, conta Adriana Martins
Na terceira ocorrência, os danos foram maiores. Segundo a proprietária, o aparelho ficou destruído e será necessário substituir tanto a condensadora, instalada na parte externa, quanto a evaporadora, que fica dentro do salão.
Ela afirma que os crimes não ficaram restritos ao próprio estabelecimento. Comércios vizinhos também teriam sido atingidos, nos aparelhos de ar-condicionado e no cobre das tubulações.
“Não fui só eu. Todos os comerciantes aqui em volta tiveram os estabelecimentos roubados. Principalmente as condensadoras de ar-condicionado e o cobre da tubulação. Foi tudo levado”, relata.
O calor que virou parte do atendimento
No salão, a ausência do ar-condicionado mudou as condições de trabalho. O espaço não possui janelas e conta apenas com a porta de entrada e saída para a circulação de ar.
“Aqui é um lugar totalmente fechado, só tem a porta de entrada. O conforto para a minha cliente está faltando”, afirma.
Após o segundo furto, ela conseguiu consertar o equipamento no dia seguinte. Desta vez, como os danos atingiram as duas partes do sistema, a substituição está demorando mais. Os novos aparelhos já foram comprados, mas ainda não foram instalados.
Enquanto espera, Adriana continua atendendo em meio ao calor. Além do desconforto, teme que a situação prejudique a relação com as clientes.
“A gente fica até com vergonha de atender a cliente nesse calorão. Tem cliente que entende e fica com dó da gente. Tem cliente que não entende”, conta. Em seguida, revela outra preocupação: “Eu fico com medo dela não voltar mais.”
Expediente reduzido por medo
Na lanchonete, a insegurança chegou ao cliente de outra forma. Depois do assalto na porta do estabelecimento, Divino Borges passou a reduzir o período de atendimento.
“Nós estamos abrindo mais tarde e estamos fechando mais cedo por causa dos assaltos”, afirma.

Foto: Francisca Martins. Divino Borges, dono da lanchonete.
A mudança limitou o funcionamento do negócio. “Eu me sinto tipo preso”, resume o comerciante. Para ele, retomar o antigo horário depende de uma mudança na segurança da região. “Eu tinha vontade de voltar ao que era antes. Nós não estamos conseguindo.”
Investimento sem garantia
Nos dois casos, o gasto com proteção não eliminou o medo. Adriana Silva afirma que investir em segurança não significa ter certeza de que o salão não será alvo novamente.
“A gente se sente impotente. Aumenta a segurança, gasta dinheiro, investe, e os ladrões podem voltar a atacar”, diz.
Ela também avalia que a resposta ao crime não acompanha o esforço de quem se protege. “A polícia vem aqui, prende os bandidos, mas eles são soltos rapidamente. Aí voltam a agir.” A avaliação é da comerciante, a partir do que observa na própria rua.
Entre o calor dentro do salão e o expediente reduzido na lanchonete, a insegurança passou a interferir em decisões que antes faziam parte da rotina: o horário de abrir, o momento de fechar e as condições oferecidas ao cliente.
O que dizem os órgãos
A reportagem procurou a Polícia Civil e a Guarda Civil Metropolitana de Goiânia para comentar os relatos dos comerciantes e informar se há investigação em andamento sobre as ocorrências no Setor Leste Universitário. Nenhum dos dois órgãos respondeu até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.