01/06/2026

Autismo infantil: a importância do diagnóstico e tratamento 

O que pode mudar na vida de uma criança com uma identificação precoce

Crédito: Getty Images

O Transtorno de Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que afeta a forma como a pessoa processa informações, se comunica e interage socialmente. A utilização do termo “espectro” está relacionada as diferentes formas em que a condição se manifesta, já que ela aparece de maneiras e intensidades únicas em cada indivíduo. Ele também é separado em três níveis de suporte, sendo considerando o 1º nível mais leve, o 2º nível moderado e o 3º nível severo. A classificação baseia principalmente na necessidade de apoio que apresentam no dia a dia.

“No nível 1, apresentam mais autonomia, mas ainda apresentam dificuldades sociais consideráveis e de comunicação. O nível 2, essas dificuldades são mais evidentes, além de outras caraterísticas mais visíveis como estereótipias, dificuldades de verbalização, e exigem suporte mais consistente. Já no nível 3, há necessidade de apoio muito maior, devido aos prejuízos mais intensos na comunicação, comportamento, incluindo até a ausência da fala ou uma fala bastante limitada”, a psicóloga especializada em Análise do Comportamento Aplicada (ABA), Samira Marques, explica.

No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) existem cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, o que representa 1,2% da população brasileira, destacando que crianças são o grupo com maior número de diagnósticos. Os dados mostram que a identificação costumam ser mais frequentes na infância. Entre crianças de 5 a 9 anos, 3,8% dos meninos possuem diagnóstico e apenas 1,3% são meninas. O IBGE aponta que esse fato pode acontecer pela identificação tardia. 

Gráfico gerado por IA

Em crianças 

É importante destacar que existem alguns sinais que podem levar os pais a ficarem mais atentos em relação aos seus filhos, como por exemplo: atraso na fala, ausência de contato visual, falta ou redução de interação social, comportamentos repetitivos e interesses restritos. É interessante observar e saber que esses sinais podem variar bastante, por isso é indispensável a avaliação de um profissional. 

“A intervenção precoce faz uma grande diferença, pois aproveita um período de maior plasticidade cerebral. Isso favorece o desenvolvimento de habilidades sociais, comunicativas e cognitivas. Quanto mais cedo o diagnóstico e o início da intervenção, maiores são as chances de evolução significativa a longo prazo” a psicóloga ressalta. 

Outro ponto muito significativo e que deve ser levado em consideração, é o tratamento, que costuma ser um conjunto de acompanhamentos terapêuticos voltados para o desenvolvimento da criança ajudando na comunicação, socialização, autonomia e qualidade de vida. “A terapia contínua é um acompanhamento regular e estruturado, sem interrupções longas, que visam desenvolver habilidades ao decorrer do tempo. A continuidade é essencial porque o aprendizado dessas crianças acontece de forma gradual e precisa de repetição e consistência para ser consolidada. Com o acompanhamento contínuo, é possível observar avanços na comunicação, interação social, autonomia e redução de comportamentos inadequados. O tempo varia de criança para criança, mas geralmente, com consistência, os primeiros progressos podem ser percebidos em alguns meses.”, explica. 

O tratamento de crianças com TEA precisa ser algo contínuo e não pode ser interrompido de maneira abrupta, pois pode acontecer uma regressão, principalmente relacionada a habilidades que ainda não foram totalmente trabalhadas, atrapalhando no desenvolvimento da criança. 

É importante destacar que a terapia não é algo feito somente pelo profissional ou que acontece dentro de uma sala. Para a criança ter uma evolução significativa, é interessante o apoio dos pais durante esse processo. “A família tem um papel fundamental, afinal são a extensão do consultório. Ela é responsável por generalizar os aprendizados do ambiente terapêutico para o dia a dia da criança, além de oferecer suporte emocional e estruturar uma rotina.” Samira reforça. 

Convivendo com o TEA 

Conversamos com Kamila Santos (39), mãe de Alice (8), que foi diagnosticada com Transtorno de Espectro Autista quando tinha 2 anos de idade. Kamila relata que sua filha se desenvolvia como qualquer outra criança, até 1 ano de idade, a garotinha balbuciava e conseguia até mesmo soltar algumas palavras como: “mamãe”, “titia” e acenava. Foi após essa idade que ela notou que havia algo diferente. “Ela parou de fazer tudo que fazia, ficou mais calada, já não emitia sons, era como se ela tivesse desaprendido tudo que sabia. A partir dali percebi que algo estava errado e precisava de ajuda para entender o que estava acontecendo”, relata. 

Antes de levar Alice em um profissional, Kamila fez algumas pesquisas antes e disse que já tinha certeza do TEA da filha. Ao receber o diagnóstico, mesmo que já pressentindo, confessa que se sentiu perdida e teve medo do que poderia acontecer com a mais nova futuramente, mas já pensando no melhor, logo começou com o tratamento. “Ela iniciou algumas terapias aos 3 anos, psicologia e fonoaudiologia. Foi muito difícil o início, tanto pra ela quanto pra mim como mãe, era tudo muito novo. Foram vários meses até chegar na adaptação”, conta. 

Apesar de encontrar dificuldades no início, Kamila mostra a importância de buscar um diagnóstico cedo, já sabendo do quão benéfico o acompanhamento com um profissional será para o futuro da sua filha, com determinação e mantendo a terapia contínua. “O tratamento foi fundamental, Alice hoje olha nos olhos, se comunica do jeitinho dela, mesmo ainda não sendo verbal, sabe dizer o que quer, se frustra menos, aprendeu a brincar com função, se socializa. Hoje, com 8 anos, nossa relação como mãe e filha é de muito amor e cuidado diário. Ela com o jeitinho que só ela tem, também me ensina muito. Aprendo diariamente sobre pureza, carinho e amor’’, ressalta como é sua relação com a filha e destaca a importância do apoio fraternal. “Além das terapeutas maravilhosas que ela tem, que também as considero parte da família, todos fazem sua parte, ajudando a estimular o aprendizado, acolhendo e sendo rede de apoio quando é preciso”, diz. 

Uma realidade 

O autismo não é uma doença, é uma condição. É uma forma de desenvolvimento diferente, então ele necessariamente não tem uma ‘’cura’’. O tratamento não busca “eliminar” o TEA, mas oferecer suporte para que a pessoa desenvolva habilidades e consiga lidar melhor com os desafios do dia a dia.‘’Cada criança dentro do espectro é única, mesmo dentro do mesmo nível, duas crianças podem ser completamente diferentes. O plano terapêutico precisa ser sempre individualizado.’’ Samira expica. 

Já em relação a fala da criança, é de grande destaque trazer que a comunicação vai muito além da fala e é por isso que é importante ter o acompanhamento de um profissional, pois são eles que vão conseguir ampliar as formas de comunicação de cada pessoa. Sobre a forma de agir, ‘’Na ABA, a gente olha muito pra isso: todo comportamento tem uma função. Então, em vez de só “corrigir”, a gente busca entender o porquê, se é fuga, atenção, acesso a algo, ou sensorial,  e ensina formas mais adequadas da criança se expressar’’, complementa. 

Em meio aos desafios do diagnóstico e da rotina terapêutica, famílias e profissionais compartilham um mesmo objetivo: garantir que crianças dentro do espectro autista tenham espaço para se desenvolver, aprender e serem compreendidas em suas individualidades. 

Saiba mais

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43464-censo-2022-identifica-2-4-milhoes-de-pessoas-diagnosticadas-com-autismo-no-brasil#:~:text=Autismo%20%C3%A9%20maior%20entre%20crian%C3%A7as,entre%2015%20e%2019%20anos.

Crédito: Mayra Gaiato | Desenvolvimento Infantil e Autismo

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