02/04/2026

Imposto de Renda: como funciona o cálculo na prática

Entenda como o imposto é descontado do salário e o que mudou na tabela mais recente

Imposto ainda gera dúvidas entre trabalhadores

O Imposto de Renda ainda gera dúvidas entre muitos brasileiros, principalmente quando o assunto é a forma como ele é calculado. Apesar de ser descontado diretamente do salário em grande parte dos casos, nem sempre fica claro por que algumas pessoas pagam mais do que outras. Segundo o contador Rhenan Carlos Neves dos Santos, proprietário da Rhenan Carlos Consultoria Contábil, a principal confusão está na forma como a cobrança é feita. “Muita gente acha que, quando muda de faixa, vai pagar mais imposto sobre todo o salário. Esse é o maior mito”, explica.

Tabela divide o salário e aplica percentuais diferentes

O Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) é calculado com base em um sistema progressivo. Nesse modelo, o salário é dividido em faixas de renda, e cada uma delas possui uma forma diferente de cobrança.

Cada faixa tem uma alíquota, que corresponde à porcentagem usada no cálculo do imposto. Por isso, o valor não é cobrado sobre todo o salário de uma só vez, mas separado em partes.

“Você nunca paga a mesma alíquota sobre tudo. O imposto é sempre calculado por pedaços do salário”, afirma o contador.

Segundo a Receita Federal, essas alíquotas variam de 0% a 27,5%, de acordo com o valor da renda.

(Fonte: Receita Federal)

Desconto mensal considera abatimentos antes do cálculo

Antes de chegar ao valor final do imposto, alguns descontos são aplicados sobre o salário bruto, como a contribuição ao INSS e a inclusão de dependentes, quando informados.

Esses abatimentos definem a base de cálculo, ou seja, o valor sobre o qual o imposto será efetivamente aplicado.

“O cálculo é simples: pega o salário, tira INSS e outros descontos, aplica a tabela e depois reduz a parcela prevista. É isso que define o valor final”, detalha Rhenan.

O resultado é o Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), que já vem descontado antes do pagamento do salário e funciona como uma antecipação do ajuste feito na declaração anual.

Exemplo mostra como o cálculo é feito

Considerando um salário bruto de R$ 3.500, o primeiro passo é aplicar o desconto do INSS. Após a dedução de R$ 308,60, o valor restante é de R$ 3.191,40, que passa a ser a base para o cálculo do imposto.

A partir desse valor, o rendimento é dividido conforme a tabela progressiva. Até R$ 2.428,80, o contribuinte é isento. Sobre a parte que vai de R$ 2.428,80 até R$ 2.826,65, incide a alíquota de 7,5%. Já o valor que ultrapassa esse limite entra na faixa de 15%.

Na prática, o cálculo é feito por etapas. Sobre R$ 397,85 aplica-se 7,5%, resultando em R$ 29,84. Já sobre R$ 364,75 aplica-se 15%, gerando R$ 54,71.

Ao final, o valor do imposto corresponde à soma dessas cobranças, chegando a aproximadamente R$ 84,55.“A alíquota maior só atinge o valor que ultrapassa a faixa anterior, não o salário inteiro”, pontua o especialista.

Nova regra amplia faixa de isenção e prevê redução gradual

Em 2025, o governo federal sancionou a Lei nº 15.270/2025, que altera as regras do Imposto de Renda da Pessoa Física. A principal mudança foi a ampliação da faixa de isenção para contribuintes com renda mensal de até R$ 5 mil.

Na prática, quem recebe até esse valor deixa de pagar o imposto. Já os trabalhadores com renda entre R$ 5 mil e R$ 7.350 passam a ter uma redução gradual no valor cobrado.

A partir de janeiro de 2026, entra em vigor um modelo que complementa essa mudança. Nesse formato, o imposto pode ser reduzido até zerar nas faixas mais baixas, enquanto a faixa intermediária passa por uma diminuição progressiva do valor devido.

Essa transição evita mudanças bruscas no desconto mensal e torna a cobrança mais equilibrada entre as diferentes faixas de renda.Na avaliação do profissional da área contábil, o impacto tende a ser mais significativo entre os contribuintes de menor renda.
“Quem ganha menos sente mais diferença. Para essas pessoas, o imposto pode simplesmente desaparecer da folha”, afirma.

Exemplo mostra cálculo com nova regra

Considerando um salário bruto de R$ 6.000, o primeiro passo é aplicar o desconto do INSS. Após a dedução de R$ 649,60, o valor restante é de R$ 5.350,40, que passa a ser a base para o cálculo do imposto. Vale destacar que, à medida que a renda se aproxima do limite da faixa de redução, o benefício diminui até que o valor volte ao padrão normal da tabela.

A partir desse valor, aplica-se a tabela progressiva. Como se trata de uma faixa mais elevada, parte da renda é tributada pela alíquota de 27,5%. Ao aplicar esse percentual sobre a base, o valor chega a R$ 1.471,36. Em seguida, é feito o desconto da parcela a deduzir, de R$ 908,73, resultando em um imposto inicial de R$ 562,63.

Com a nova regra, entra em cena a redução para rendimentos entre R$ 5 mil e R$ 7.350. Esse desconto é calculado por uma fórmula: multiplica-se 0,133145 por 6.000, chegando a R$ 798,87. Depois, esse valor é subtraído de R$ 978,62, resultando em uma redução de R$ 179,75.

Na prática, esse valor é abatido do imposto inicial. Com isso, o total a pagar cai de R$ 562,63 para R$ 382,88 após a aplicação da nova regra.

Impacto direto no bolso

As mudanças na tabela do Imposto de Renda afetam diretamente o salário líquido, ou seja, o valor que o trabalhador recebe no fim do mês. Com a ampliação da faixa de isenção, parte da população deixa de ter o imposto descontado, o que aumenta a renda disponível no dia a dia.

Segundo o governo federal, cerca de 15 milhões de brasileiros podem ser beneficiados com a medida. Esse aumento na renda tende a ter efeito imediato, principalmente entre trabalhadores de renda média e baixa.

Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada apontam que, nessas faixas, o valor adicional costuma ser rapidamente direcionado ao consumo, o que ajuda a movimentar o comércio e a economia.

Nesse cenário, o impacto pode ser percebido tanto no orçamento das famílias quanto na atividade econômica.
“Quando o imposto some da folha, esse valor vai direto para o salário líquido. É um dinheiro que passa a fazer diferença todo mês, explica o especialista.

O reflexo também aparece no consumo, segundo o contador.
“Quando muita gente passa a ganhar um pouco mais, isso circula rápido na economia, principalmente no comércio”, acrescenta.

Para ele, o efeito não se limita ao curto prazo e pode trazer mudanças mais amplas ao longo do tempo.
“Se essas atualizações continuarem acontecendo, o impacto não é só no consumo, mas na qualidade de vida ao longo do tempo”, conclui.

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