02/04/2026

Fé, cultura e economia: Como as festas religiosas moldam o estado de Goiás

De celebrações tradicionais a festivais atuais, as manifestações religiosas exercem em Goiás, influência decisiva na formação histórica, cultural e socioeconômica do estado, reunindo milhões de pessoas todos os anos e movimentando setores como turismo, comércio e serviços. Eventos como a Romaria do Divino Pai Eterno exemplificam como fé e desenvolvimento caminham juntos, consolidando o chamado turismo religioso como vetor econômico regional.

(Reprodução/trindade.go.gov.br)

Tradição centenária e origem histórica

As manifestações religiosas em Goiás têm origem no período colonial, quando o catolicismo, trazido pelos portugueses, se integrou a elementos das culturas indígena e africana. Dessa fusão surgiram tradições que persistem até hoje, como as Cavalhadas, as congadas e as romarias, fundamentais para a identidade cultural do estado.

A Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade, destaca-se entre as principais celebrações. Iniciada na década de 1840, após a descoberta de um medalhão religioso, a festa evoluiu de uma devoção local para um evento de dimensão nacional.

Outras manifestações, como a Procissão do Fogaréu, na cidade de Goiás, e a Festa de Nossa Senhora do Rosário, também refletem a diversidade histórica e cultural goiana, evidenciando a contribuição de diferentes grupos sociais na formação dessas tradições.

(Reprodução/Canal Pai Eterno)

Dimensão cultural e identidade social

Mais do que manifestações de fé, essas celebrações são reconhecidas como patrimônios imateriais e desempenham papel central na formação da identidade coletiva. Estudos apontam que elas fortalecem os vínculos entre comunidade e território, promovendo o sentimento de pertencimento e a preservação cultural ao longo do tempo.

Além disso, refletem as dinâmicas sociais históricas de Goiás. Enquanto as Cavalhadas estiveram ligadas às elites coloniais, as congadas emergiram como expressões populares associadas às camadas mais pobres e à população negra, evidenciando tanto desigualdades quanto formas de resistência cultural.

Impacto econômico e turismo religioso

Do ponto de vista socioeconômico, os eventos religiosos têm papel estratégico no desenvolvimento regional. A Romaria do Divino Pai Eterno, por exemplo, chega a reunir mais de 3 milhões de visitantes todos os anos, gerando impactos diretos no comércio, na rede hoteleira e nos serviços.

 (Festival Totus Tuus Mariae 2025/ Foto: Divulgação)

Além da romaria, eventos mais atuais como o Festival Totus Tuus Mariae, tem atraído fiéis de todo o Brasil. Após reunir mais de 60 mil pessoas em 2025,esse ano, a celebração que acontecerá no dia 30 de maio, espera ampliar o público e reforçar o papel da capital como polo de turismo religioso. 

“É imensurável calcular o quanto o Totus Tuus atingiu nosso povo. Os fiéis superaram nossas expectativas, as transmissões ao vivo atingiram milhares de pessoas, e todo dia recebo inúmeros vídeos do evento nas redes. Não dá para mensurar o que foi tocado no coração das pessoas.”, destacou o Padre Marcos Rogério, idealizador do evento, a respeito da relevância do festival para os católicos.

Segundo dados recentes, festas religiosas em Goiás podem movimentar até R$ 60 milhões, com crescimento significativo em setores como vestuário, alimentação e turismo. A empresária Eliete Maria (60), que atua como proprietária de uma loja de artigos religiosos sente esse efeito no estabelecimento, que fica em frente à Igreja Matriz de Campinas 

“A cidade fica cheia, vem gente de todo lugar, e muitos aproveitam para levar lembrancinhas.”, afirma a empreendedora.

O poder público também reconhece esse potencial. Iniciativas como o “Passaporte da Fé”, promovido pelo governo estadual, buscam integrar diferentes eventos e incentivar o fluxo turístico, reforçando a economia e valorizando o patrimônio cultural.

Segundo o secretário estadual de indústria, comércio e serviços de Goiás, Joel Sant’Anna Braga Filho, essas tradições e celebrações religiosas não movimentam apenas os lucros das empresas, como também promovem a geração de empregos, sejam eles formais ou informais.  

“Nossas tradições espirituais e celebrações ao longo do ano, atraem visitantes, movimentam a economia regional, fortalecem pequenos negócios e ajudam a transformar cultura e devoção em oportunidades concretas de geração de renda e emprego para a população.”, declara o secretário. 

A questão é que com o aumento no fluxo de visitantes e fiéis, lojas, hotéis e restaurantes recorrem a contratação de funcionários temporários para atender à demanda. Esses são exemplos de empregos formais, com registro e organização definida, que ajudam a movimentar a economia da região. 

Ao mesmo tempo, cresce também o número de trabalhadores informais, como vendedores ambulantes, artesãos, motoristas de transporte alternativo e pessoas que aproveitam a ocasião para comercializar alimentos e produtos religiosos. Embora nem sempre tenham vínculo empregatício formal, esses trabalhos representam uma importante fonte de renda para muitas famílias. 

No fim das contas, os eventos religiosos mostram que fé e economia caminham lado a lado, e que, para muitas pessoas, esses momentos representam não apenas expressão espiritual, mas também uma chance concreta de sustento.

Veja também: Documentário da Secretaria de Estado de Cultura a respeito das festas tradicionais do estado, produzido em 1997 pelo Museu da Imagem e do Som de Goiás.

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